· Atualizado a · Escrito e mantido por Nonimo
Antes de pôr um documento numa IA, retire cinco famílias de dados pessoais: os identificadores diretos (nome, NIF, número do Cartão de Cidadão, NISS, número de utente, passaporte), os contactos (morada, telemóvel, email), os dados financeiros (IBAN, cartão bancário), as referências a processos (número de processo judicial, apólice, processo clínico, matrícula) e as combinações que apontam para alguém sem o nomear, como o cargo, a empresa, a localidade e a data.
A lista completa, com a forma de cada número português e o que deixar no lugar, vem a seguir.
Este guia é só a lista. Como tirar os dados de um PDF sem deixar o texto por baixo da tarja explica-se em ocultar dados num PDF; num Word, com alterações registadas e comentários, no guia sobre anonimizar um documento Word. Aqui a pergunta é anterior às duas: o que é que tem de sair.
Uma nota de vocabulário. Trocar estes dados por marcadores que depois se repõem é pseudonimizar, não anonimizar, e para o RGPD o resultado ainda contém dados pessoais; porquê, explica-o o guia de pseudonimização.
Que dados pessoais retirar de um documento: a resposta curta
O RGPD não traz uma lista fechada. Traz uma definição, no artigo 4.º, que já funciona como lista para quem a lê devagar: é identificável quem possa ser identificado, direta ou indiretamente, por um nome, um número de identificação, dados de localização, identificadores por via eletrónica ou elementos da identidade física, fisiológica, genética, mental, económica, cultural ou social.
Traduzida para o papel de um escritório português, essa frase dá cinco famílias. Os números que o Estado atribui a cada pessoa. Os contactos, que a localizam. Os dados de banco. As referências que abrem um processo guardado noutro sítio. E os traços de vida, a profissão, o empregador, a terra, que a última parte da definição chama identidade económica e social.
As quatro primeiras famílias têm uma coisa em comum: cada dado, sozinho, chega para saber de quem se fala. São as que se substituem sempre. A quinta é diferente, e tem secção própria mais abaixo, porque é a que as limpezas feitas à pressa deixam passar.
O critério para cada linha vem do artigo 5.º do RGPD, que quer os dados limitados ao necessário para a finalidade. A IA precisa da tarefa: rever a cláusula, resumir a ata, responder à reclamação. Quase nunca precisa de saber quem é a pessoa. Se a tarefa não precisa do dado, ele não sai do seu computador. O que acontece ao que sai, depois de enviado, depende do serviço, e está contado em guias como o do ChatGPT e os seus dados.
Um cartão, quatro números: os identificadores diretos
Portugal não tem um número único por pessoa, e não é por acaso. A Constituição, no artigo 35.º, n.º 5, proíbe a atribuição de um número nacional único aos cidadãos. Por isso cada serviço do Estado tem o seu: as Finanças, o registo civil, a Segurança Social, o Serviço Nacional de Saúde.
O Cartão de Cidadão junta-os à vista. A lei que o criou, de 2007, enumera entre os elementos visíveis o número civil, o fiscal, o da Segurança Social e o de utente. E no artigo 16.º, n.º 4, proíbe a interconexão das bases de onde esses números vêm, salvo autorização legal ou da CNPD.
O que o Estado mantém separado, um documento de escritório junta numa página. Uma ficha de admissão tem o NIF para o IRS, o NISS para a Segurança Social e o número do cartão para o contrato, e a de um motorista, a carta de condução. Uma procuração tem o nome, o cartão e a morada. Cada um destes números, colado numa IA, leva a pessoa com ele.
O NIF, e quando o de uma empresa não conta
Segundo a Autoridade Tributária, o NIF tem 9 dígitos e é condição para muitos atos da vida corrente, dos contratos às contas bancárias. Aparece em faturas, recibos, contratos de arrendamento, declarações de IRS e em quase todos os formulários que um cliente preenche.
O NIF de uma sociedade é outro caso. O considerando 14 do RGPD diz que o regulamento não abrange os dados de pessoas coletivas, incluindo a denominação, a forma jurídica e os contactos. Só que o trabalhador independente passa recibos com o NIF da própria pessoa, e um recibo de um médico ou de um explicador é um documento com dados pessoais. Na dúvida, trate qualquer NIF como pessoal.
Encontrar um NIF num texto é mais difícil do que parece, porque nove algarismos também podem ser um telefone. A explicação, com o plano de numeração, está no guia para quem trabalha com dados de clientes numa contabilidade, e não a repetimos aqui.
Cartão de Cidadão e bilhete de identidade
O número de documento do Cartão de Cidadão não é só o número de identificação civil. A especificação técnica publicada pela AMA descreve-o em quatro partes: oito algarismos do número de identificação civil, um dígito de controlo, duas posições de versão e um segundo dígito de controlo. O próprio documento dá como exemplo o número 00000000 0 ZZ4, que usamos neste guia.
A versão é do cartão; o número de identificação civil é da pessoa, a quem a lei do cartão o atribui no artigo 16.º. É por isso que uma cópia antiga do Cartão de Cidadão, se não foi traçada, junta a um processo, continua a identificar o titular anos depois de o cartão ter caducado. E ainda circulam bilhetes de identidade vitalícios, que a própria AT menciona na sua página sobre o NIF.
Numa imobiliária, o número do cartão do comprador aparece no contrato-promessa e na escritura, e a página sobre a IA nas imobiliárias responde à pergunta do cartão do cliente.
NISS, número de utente e passaporte
O NISS tem 11 algarismos, segundo o guia prático do Instituto da Segurança Social, que menciona ainda o antigo número de beneficiário, de 9 algarismos. Os dois aparecem em recibos de vencimento, contratos de trabalho e declarações de remunerações, e o antigo ainda surge em papéis mais velhos.
O número de utente é único, nacional e definitivo, nos termos do regulamento do RNU, o registo de utentes da saúde. Tem uma particularidade que os outros não têm: pelo considerando 35 do RGPD, é ele próprio um dado de saúde, e o guia de RGPD na saúde trata-o por inteiro.
O passaporte e o título de residência entram na lista sobretudo pelos clientes estrangeiros. Um processo de arrendamento, de contratação ou de nacionalidade traz muitas vezes a cópia do passaporte, com o número, a data de nascimento e a fotografia, ou a da carta de condução.
| Identificador | Quem o atribui | Forma | Onde costuma estar |
|---|---|---|---|
| NIF de pessoa singular | Autoridade Tributária | 9 algarismos | faturas, recibos, IRS |
| Número do Cartão de Cidadão | registo civil | 8 algarismos, controlo, versão, controlo | procurações, contratos |
| NISS | Segurança Social | 11 algarismos | recibos de vencimento |
| Número de beneficiário antigo | Segurança Social | 9 algarismos | documentos antigos |
| Número de utente | SNS | número único e definitivo | baixas, receitas, relatórios |
| Passaporte e título de residência | Estado emissor | letras e algarismos | processos de estrangeiros |
Fonte: AT, AMA, Instituto da Segurança Social, regulamento do RNU; formas como as descrevem essas entidades.
Morada, telemóvel e email: os contactos
Os contactos não dizem quem a pessoa é; dizem onde a encontrar, e isso chega. Uma morada completa, com rua, número, andar e código postal, aponta para uma casa. Um telemóvel aponta para um aparelho que alguém traz no bolso. A IA não precisa de nenhum dos dois para redigir uma carta ou resumir uma reclamação.
Em Portugal, os telemóveis têm nove algarismos e começam por 9, e os fixos começam por 2, segundo o plano de numeração da ANACOM. O email tem uma armadilha própria: um endereço de trabalho feito de nome e apelido, colado depois de se ter apagado o nome do texto, devolve o nome à primeira leitura.
A Lei 58/2019 põe moradas e contactos à parte
A lei portuguesa que executa o RGPD decide, em três artigos, o que se pode tornar público, e os três vão no mesmo sentido.
O artigo 24.º, n.º 4, diz que a liberdade de expressão não legitima a divulgação de moradas e contactos, salvo os de conhecimento generalizado. O artigo 25.º, n.º 2, manda publicar só o nome nos jornais oficiais sempre que o nome baste. O artigo 27.º diz o mesmo da contratação pública.
Carregar um documento numa IA não é publicá-lo, e estes artigos não se aplicam a esse gesto. Mas mostram onde o legislador português pôs a linha quando teve de a pôr: o nome é o máximo que sai, e a morada e o telefone ficam para trás. É uma boa régua para um escritório.
Nome, morada e contactos numa deliberação da CNPD
O caso mais conhecido em Portugal é o da Câmara de Lisboa. Na Deliberação/2021/1569, de 21 de dezembro de 2021, a CNPD condenou o Município numa coima única de 1 250 000 euros por ter comunicado a terceiros, incluindo embaixadas, os dados pessoais dos promotores de manifestações. A queixa partiu de dois cidadãos cujos dados foram enviados à Embaixada da Rússia.
A deliberação lembra que a lei de 1974 sobre o direito de reunião pedia aos promotores o nome, a profissão e a morada, e admite que hoje se lhes juntem emails e telefones; o que não admite é espalhá-los por quem não precisa deles.
Das 225 contraordenações, 111 eram por violação do princípio da minimização. Em julho de 2024, o Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa deu razão à CNPD e fixou a coima em 1 027 500 euros, descontadas as infrações prescritas.
O contexto é o de um serviço público, e o guia sobre a IA nas câmaras municipais trata-o de perto. A lição serve a qualquer escritório: o nome e os contactos, enviados a quem não precisava deles, valeram mais de cem infrações por minimização. Quando um documento com contactos foi parar a uma IA, o que avaliar e em que prazo está no guia sobre notificar uma violação de dados à CNPD.
IBAN, cartão e extrato: os dados financeiros
O IBAN português tem 25 carateres e, segundo o Banco de Portugal, começa sempre por PT50, seguido dos 21 algarismos do antigo NIB: quatro do banco, quatro do balcão, onze da conta e dois de controlo. Os quatro algarismos do banco dizem logo onde está a conta, e a conta diz o resto a quem a pode consultar.
Um IBAN aparece em contratos de trabalho, notas de honorários, faturas de fornecedores e em todas as fichas de cliente com débito direto. Não há tarefa de redação que precise dele. Se a IA tem de verificar se um mapa de pagamentos bate certo, precisa dos valores e das datas, não das contas. Se esse mapa sair do programa de gestão, as contas nem precisam de entrar na exportação em CSV preparada para a IA.
O número de um cartão bancário, a data de validade e o código de segurança nunca deviam estar num documento de trabalho, e se estão, saem os três. No extrato bancário, o risco está nos descritivos, que trazem o nome de quem pagou ou recebeu; o que tirar de um extrato, linha a linha, vem na página dos contabilistas certificados.
O próprio valor também pode identificar. Um vencimento exato, numa empresa pequena, diz quem o recebe a quem conhece a empresa. É um dado que muitas vezes é o objeto da pergunta e tem de ficar; nesse caso, o que sai é o que o liga à pessoa.
Processo, apólice, processo clínico e matrícula
Há números que não identificam uma pessoa por si: abrem um processo guardado noutro sítio, e o processo tem a pessoa lá dentro. São referências, e quem as vê num texto tende a lê-las como códigos internos sem importância.
| Referência | Onde fica o processo | Como se reconhece |
|---|---|---|
| Número de processo judicial | tribunal | número, ano e sigla da comarca |
| Apólice de seguro | seguradora | número próprio de cada seguradora |
| Número de sinistro | seguradora | ao lado da apólice |
| Processo clínico ou episódio | hospital ou clínica | número interno do serviço |
| Matrícula | registo automóvel | letras e algarismos em três grupos |
| Número de cliente ou de funcionário | a própria empresa | número interno, sem forma fixa |
Fonte: critério deste guia; a forma do número de processo é a que se lê nos acórdãos publicados.
O número de processo judicial é o que mais escapa, porque parece uma referência técnica. Quem o lê consegue abrir o processo inteiro, com as partes e o que se discute. O guia para advogados dedica-lhe uma secção inteira.
A apólice e o número de sinistro fazem o mesmo na seguradora: com eles, qualquer pessoa da casa encontra o tomador, o segurado e a história do sinistro. Um corretor que pede a uma IA para rever uma participação deixa o que aconteceu e tira quem é, como mostra a página para corretores de seguros. O processo clínico segue a mesma regra na IA para clínicas.
Uma matrícula que ninguém usa
A matrícula liga o carro a um proprietário no registo automóvel, e numa lista de viaturas de serviço, num relatório de sinistro ou numa multa aponta para quem o conduz. Em Portugal circulam vários formatos ao mesmo tempo, porque os carros mantêm a matrícula com que foram registados.
O formato atual, com duas letras, dois algarismos e duas letras, começou em março de 2020. Segundo o IMT, citado pela RTP a 3 de março de 2020, a matrícula inicial dessa série, AA-00-AA, ficou reservada para memória futura, e o primeiro carro recebeu AA-01-AA. É a que usamos nos exemplos: tem a forma de uma matrícula verdadeira e não está em nenhum carro.
Os números internos da última linha da tabela merecem uma frase. Um número de cliente ou de funcionário não diz nada a quem está fora, mas dentro da empresa é o nome escrito de outra maneira. Se a conversa com a IA for partilhada entre colegas, quem a lê sabe logo de quem se trata.
Exemplos de dados pessoais sem número: IP, email de trabalho, voz e assinatura
Nem todos os identificadores são números impressos num cartão. O considerando 30 do RGPD fala de identificadores por via eletrónica, como os endereços IP e os testemunhos de conexão, que deixam vestígios que, combinados com outras informações, servem para criar perfis e identificar pessoas. Num documento de escritório, aparecem em registos de acesso, cabeçalhos de email e relatórios de incidentes informáticos.
O email de trabalho já apareceu nos contactos, mas volta aqui por outra razão: um endereço genérico, como o geral de uma empresa, não identifica ninguém, e um endereço com nome e apelido identifica tanto como o nome. A assinatura digitalizada no fim de uma carta, a voz numa transcrição de chamada e a fotografia num processo de pessoal são dados da mesma pessoa em outra forma.
O endereço geral de uma empresa, o número de telefone da receção, a denominação e o NIF de uma sociedade.
O email com nome e apelido, o IP do computador de uma pessoa, a assinatura digitalizada, a voz numa gravação.
As fotografias trazem ainda o que não se vê, a câmara, a data e as coordenadas, e isso é assunto do guia sobre remover metadados de um Word ou PDF. Quanto tempo uma foto carregada fica no ChatGPT, no Gemini, no Claude ou no Copilot está no guia sobre as fotos que se carregam numa IA.
E há dados que o RGPD protege mais, como os de saúde, os sindicais ou os religiosos: esses decidem se o documento pode sair de todo, e têm guia próprio sobre as categorias especiais escondidas em recibos e processos.
Cargo, empresa, localidade e data: os quase-identificadores
Esta é a família que as limpezas feitas à mão deixam passar, porque nenhum dos seus dados parece pessoal. Um cargo não é um nome. Uma empresa não é uma pessoa. Uma localidade tem milhares de habitantes. Uma data é só uma data. O problema está no «e».
No considerando 26, o RGPD pede que se tenham em conta «todos os meios suscetíveis de ser razoavelmente utilizados» para identificar alguém, e dá como exemplo a seleção, ou seja, conseguir isolar uma pessoa num conjunto. É o que fazem estes dados quando aparecem juntos: não dizem quem é, mas deixam só uma hipótese. Numa folha de cálculo, basta um filtro que devolva uma única linha para o ver.
Um exemplo, numa terra inventada
Imagine uma frase numa ficha de admissão, já sem nome, sem NIF e sem morada: «entra a 1 de outubro como diretora financeira da fábrica de conservas de Vila Seca do Mondego». Vila Seca do Mondego não existe; inventámo-la para este exemplo. Mas qualquer pessoa conhece uma terra assim.
Na terra, toda a gente sabe quem é a nova diretora financeira da fábrica. No gabinete de contabilidade que processa os salários, também. E a quem não conhece a terra, uma pesquisa pela fábrica na Internet pode bastar para chegar ao nome. A frase não tem um único dado que um filtro reconheça como pessoal.
O que se faz com ela é reescrever, não apagar. A IA precisa de saber que é um cargo de direção numa empresa industrial, para redigir o contrato ou o comunicado interno. Não precisa da terra, da fábrica, nem do dia. «Entra no próximo mês como responsável financeira de uma empresa industrial» serve a tarefa e já não aponta para ninguém.
Porque é que três dados bastam
O estudo mais citado sobre isto é americano. Em 2000, Latanya Sweeney calculou que 87 % da população dos Estados Unidos tinha uma combinação única de código postal de cinco algarismos, sexo e data de nascimento. Três dados banais, que estão em qualquer ficha, chegavam para a maioria das pessoas.
Em 2019, uma equipa do Imperial College e da Universidade Católica de Lovaina publicou na Nature Communications um modelo segundo o qual 99,98 % dos americanos seriam reidentificados em qualquer conjunto de dados com 15 atributos demográficos. Não encontrámos um estudo equivalente para Portugal, e não vamos inventar a percentagem.
A regra prática sai daqui: substituir a data de nascimento pela idade ou por uma faixa etária, a localidade pela região quando a região interessa, o cargo pela função genérica, e a data exata pelo mês. Porque é que, mesmo assim, o RGPD ainda vê ali dados pessoais explica-o o guia sobre pseudonimização, e num relatório clínico a mesma ideia tem o seu próprio exemplo.
A tabela: o que retirar e o que pôr no lugar
Tirar sem pôr nada no lugar deixa buracos que a IA não percebe. Um marcador que diz o papel da pessoa deixa a frase inteira e a resposta aproveitável. A tabela junta as famílias e a troca que funciona na maior parte dos documentos.
| Dado | Exemplo | O que fica no lugar |
|---|---|---|
| Nome | Inês Vasconcelos Paiva | [CLIENTE], [TRABALHADORA] |
| Números do Estado | NIF, cartão, NISS, utente | nada, ou [NIF] |
| Morada e código postal | a morada completa | a região, se a tarefa precisar |
| Contactos e contas | telemóvel, email, IBAN | nada |
| Processo, apólice, matrícula | AA-00-AA | [PROCESSO], [VIATURA] |
| Data de nascimento | a data completa | a idade |
| Cargo, empresa, localidade, data | a frase da fábrica | a função genérica e o mês |
Critério deste guia; os exemplos são inventados e não pertencem a ninguém.
Num escritório de advogados, a mesma tabela aplica-se à procuração, à petição e à nota de honorários, e a página para advogados mostra uma peça tratada assim. Uma regra escrita que diga que documentos saem e com que marcadores poupa esta discussão em cada caso; há uma política de IA escrita para um gabinete que serve de ponto de partida.
O que o Nonimo tapa numa ficha de admissão
Das cinco famílias, as quatro primeiras são trabalho repetitivo, e é essa parte que o Nonimo faz. Entrega-se o documento à app, que o trata no próprio computador, e o que volta é o texto com marcadores no lugar dos dados, pronto para a conversa, e uma cópia do documento igualmente tapada. Quando chega a resposta, a app repõe os valores reais. Na ferramenta acima deste guia, o texto colado sai tapado, pronto a copiar ou a descarregar, e é descartado assim que recebe o resultado. Uma ficha inventada, tapada pelo Nonimo:
ANTES DEPOIS (Nonimo)
Nome: Inês Vasconcelos Paiva Nome: [PESSOA_1]
Data de nascimento: 30/02/1980 Data de nascimento: [DATA_NASCIMENTO_1]
NIF: 012 345 675 NIF: [REFERENCIA_1]
Cartão de Cidadão: 00000000 0 ZZ4 Cartão de Cidadão: [CAMPO_FICHA_1]
NISS: 01234567890 NISS: [REFERENCIA_2]
Morada: Travessa do Pombal Inventado, 0 Morada: [CAMPO_FICHA_2]
Telemóvel: 000 000 000 Telemóvel: [TELEFONE_1]
Email: ines.paiva@example.com Email: [E-MAIL_1]
IBAN: PT50 0000 0000 0000 0000 0000 0 IBAN: [CAMPO_FICHA_3]
Viatura atribuída: AA-00-AA Viatura atribuída: [REFERENCIA_3]
Apólice n.º 0000000000 Apólice n.º [REFERENCIA_4]
Valores inventados, escolhidos para não serem de ninguém: a data não existe, os números fiscal, da Segurança Social e de telemóvel começam por 0, o cartão é o exemplo da AMA, a matrícula é a reservada pelo IMT, e a porta e a apólice são zeros.
Na app, a correspondência entre marcadores e valores fica no seu computador; o detalhe está na página de Segurança.
Antes de enviar: a lista dos dados, ponto por ponto
A lista inteira reduz-se a oito perguntas, pela ordem das famílias. Vale a pena fazê-las sempre pela mesma ordem, porque a que se salta é quase sempre a sétima. Num Word que passou por várias mãos, faça-as depois de aceitar as alterações e eliminar os comentários, porque o texto cortado e as notas da margem também levam nomes.
- A IA precisa do documento inteiro? Se precisa de um parágrafo, envie o parágrafo.
- Há um nome, completo ou em parte? Procure também o apelido sozinho e o nome próprio.
- Há números do Estado? NIF, cartão, NISS, utente, passaporte: saem todos.
- Há morada, telemóvel ou email? Saem, incluindo o email de trabalho com nome.
- Há IBAN, cartão ou extrato? Ficam os valores e as datas, saem as contas.
- Há referências a processos? Processo, apólice, sinistro, processo clínico, matrícula.
- Há dados que se juntam? Cargo, empresa, terra e data: reescreva-os em termos gerais.
- Há dados de saúde, sindicais ou religiosos? Então decida primeiro se o documento deve ir para a IA.
Para escolher o assistente a que o texto vai, há uma comparação dos assistentes face ao RGPD, e para pôr a mesma lista a funcionar numa equipa, as instruções para organizações.
Fontes
Verificadas a 28 de setembro de 2026.
- Regulamento (UE) 2016/679, versão portuguesa, na Procuradoria-Geral Regional de Lisboa. Artigo 4.º, n.º 1, definição de dados pessoais e exemplos de identificadores; artigo 5.º, n.º 1, alínea c), minimização; considerandos 14 (pessoas coletivas), 26 (meios razoáveis e seleção), 30 (endereços IP e testemunhos de conexão) e 35 (número atribuído para cuidados de saúde).
- Constituição da República Portuguesa, no site da Assembleia da República. Artigo 35.º, n.º 5: é proibida a atribuição de um número nacional único aos cidadãos.
- Lei n.º 7/2007, de 5 de fevereiro, cartão de cidadão, na Procuradoria-Geral Regional de Lisboa. Artigo 7.º, n.º 1, os números visíveis no cartão; artigo 16.º, n.º 4, a interconexão das bases só com autorização legal ou da CNPD.
- Lei n.º 58/2019, de 8 de agosto, na Procuradoria-Geral Regional de Lisboa. Artigos 24.º, n.º 4, 25.º, n.º 2, e 27.º: moradas e contactos, e o nome como máximo a publicar quando baste.
- CNPD, Deliberação/2021/1569, processo AVG/2021/300. Coima de 1 250 000 euros ao Município de Lisboa; 111 contraordenações pelo artigo 5.º, n.º 1, alínea c); o nome, a profissão e a morada pedidos pela lei de 1974, e os emails e telefones recolhidos.
- CNPD, Tribunal confirma violação do RGPD pela autarquia de Lisboa, 13 de agosto de 2024. Sentença de 21 de julho de 2024; coima de 1 027 500 euros; a queixa de dois cidadãos sobre a Embaixada da Rússia.
- Autoridade Tributária, NIF, Portal das Finanças. O NIF tem 9 dígitos; o bilhete de identidade vitalício.
- AMA, Validação de Número de Documento do Cartão de Cidadão, versão 1.0, 26 de janeiro de 2009. A composição do número de documento e o exemplo 00000000 0 ZZ4.
- Instituto da Segurança Social, Guia prático da Segurança Social Direta, cópia alojada pela APOTEC. O NISS composto por 11 dígitos e o número de beneficiário de 9 dígitos.
- ACSS, Regulamento do Registo Nacional de Utentes, ponto 2. O número nacional de utente é único, nacional e definitivo.
- Banco de Portugal, International Bank Account Number. O IBAN português tem 25 carateres, PT50 seguido do NIB de 21 algarismos: banco, balcão, conta e controlo.
- ANACOM, Plano Nacional de Numeração. Números de nove algarismos; fixos na gama 2 e móveis na gama 9.
- RTP, Emitida a primeira matrícula do novo modelo AA-00-AA, 3 de março de 2020. Fonte do IMT: a matrícula AA-00-AA reservada para memória futura; a primeira atribuída, AA-01-AA.
- Latanya Sweeney, Simple Demographics Often Identify People Uniquely, Carnegie Mellon University, 2000. 87 % da população dos EUA provavelmente única pelo código postal de cinco algarismos, sexo e data de nascimento.
- Rocher, Hendrickx e de Montjoye, Estimating the success of re-identifications in incomplete datasets using generative models, Nature Communications, 2019. 99,98 % dos americanos reidentificados com 15 atributos demográficos.
- Teste próprio, 28 de setembro de 2026. Ficha de admissão inventada, tratada pelo motor do Nonimo; valores impossíveis ou reservados.
Perguntas frequentes
Que dados pessoais tenho de tirar de um documento para usar uma IA?
Tudo o que aponte para uma pessoa e de que a tarefa não precise: nome, NIF, número do cartão, NISS, número de utente, passaporte, morada, telemóvel, email, IBAN, números de processo, apólice e matrícula. E ainda as combinações de cargo, empresa, localidade e data. O RGPD manda minimizar no artigo 5.º. O Nonimo substitui estes dados por marcadores antes de o texto seguir.
Quais são exemplos de dados pessoais num documento português?
Os mais comuns são o nome, o NIF de pessoa singular, o número de identificação civil, o NISS, o número de utente, a morada, o telemóvel, o email, o IBAN e a matrícula. O artigo 4.º do RGPD acrescenta os dados de localização e os identificadores por via eletrónica, como o endereço IP. O Nonimo reconhece os formatos portugueses mais comuns e troca-os por marcadores.
O NIF de uma empresa é um dado pessoal?
Normalmente não. Segundo o considerando 14, o RGPD não abrange os dados de pessoas coletivas, incluindo a denominação e os contactos. Mas o trabalhador independente passa recibos com o NIF da própria pessoa, e esse é um dado pessoal. Na dúvida, trate qualquer NIF como pessoal. O Nonimo tapa o número de contribuinte, seja de pessoa singular ou de empresa.
Porque é que o Cartão de Cidadão tem quatro números diferentes?
Porque a Constituição proíbe, no artigo 35.º, n.º 5, atribuir aos cidadãos um número nacional único. No cartão estão o número civil, o fiscal, o de utente e o da Segurança Social, e a lei do cartão não permite cruzar essas bases sem autorização legal ou da CNPD. Numa ficha de cliente, os quatro aparecem lado a lado, e saem todos.
A matrícula de um carro identifica uma pessoa?
Pode identificar. A matrícula liga o carro a um proprietário no registo automóvel, e num relatório de sinistro ou numa lista de viaturas de serviço aponta para quem o conduz. Por isso sai do texto, como o nome. Nos nossos exemplos usamos AA-00-AA, a primeira do formato de 2020, que o IMT reservou e não atribuiu a nenhum carro. O Nonimo troca-a por um marcador.
O que são quase-identificadores?
São dados que não identificam ninguém sozinhos, mas identificam juntos: o cargo, a empresa, a localidade, a data de entrada, a idade. Para o RGPD, no considerando 26, contam todos os meios razoáveis de identificar alguém, incluindo isolar uma pessoa num grupo. Num estudo de 2000, três dados bastavam para tornar única a maioria dos americanos. Estes dados reescrevem-se à mão.
Um endereço de email do trabalho é um dado pessoal?
Sim, quando diz de quem é. Um endereço com o nome e o apelido da pessoa identifica-a tanto como o nome escrito, e o RGPD define dado pessoal como informação relativa a pessoa identificada ou identificável. Um endereço genérico, como o da contabilidade de uma empresa, em regra não. O Nonimo troca os emails por um marcador, e a app repõe o original na resposta.
Que dados de uma ficha de cliente tapa o Nonimo?
Numa ficha de admissão inventada, tapou o nome, o dia em que a pessoa nasceu, o NIF, o cartão, o NISS, a morada, o telemóvel, o email, o IBAN, a matrícula e a apólice.